quarta-feira, 6 de novembro de 2024

8ª Jornada Mundial dos Pobres - mensagem do Papa Francisco

 

A oitava Jornada Mundial dos Pobres acontece, no Brasil,  de 10 a 17 de novembro de 2024.

O tema é "Ouve o meu clamor" e o lema, "A oração do pobre eleva-se até Deus"  (cf. Eclo 21, 5). O Papa Francisco nos convida a abrir nossos corações a oração e à solidariedade com os mais necessitados. 

O Dia Mundial dos Pobres é uma celebração da Igreja, comemorada no 33º domingo do Tempo Comum, desde 2017. Foi instituído pelo Papa Francisco em sua Carta Apostólica Misericordia et Misera, de 20 de novembro de 2016 na conclusão  do Jubileu da Misericórdia. Leia a Mensagem do Papa Francisco

MENSAGEM DO  PAPA FRANCISCO

PARA O 8º DIA MUNDIAL DOS POBRES

XXXIII Domingo do Tempo Comum

17 de novembro de 2024


A oração do pobre eleva-se até Deus (cf. Eclo 21, 5)

Caros irmãos e irmãs!

1. A oração do pobre eleva-se até Deus (cf. Eclo 21, 5). No ano dedicado à oração, em vista do Jubileu Ordinário de 2025, esta expressão da sabedoria bíblica é ainda mais oportuna a fim de nos preparar para o VIII Dia Mundial dos Pobres, que acontecerá no próximo 17 de novembro. A esperança cristã inclui também a certeza de que a nossa oração chega à presença de Deus; não uma oração qualquer, mas a oração do pobre. Reflitamos sobre esta Palavra e “leiamo-la” nos rostos e nas histórias dos pobres que encontramos no nosso dia-a-dia, para que a oração se torne um modo de comunhão com eles e de partilha do seu sofrimento.

2. O livro de Ben-Sirá, ao qual nos referimos, não é muito conhecido e merece ser descoberto pela riqueza dos temas que aborda, sobretudo quando se refere à relação do homem com Deus e com o mundo. O seu autor, Ben-Sirá, é um mestre, um escriba de Jerusalém que, provavelmente, escreve no século II a.C. Radicado na tradição de Israel, é um homem sábio, que ensina sobre vários domínios da vida humana: desde o trabalho à família, desde a vida em sociedade à educação dos jovens; presta atenção às questões relacionadas com a fé em Deus e a observância da Lei. Aborda os problemas nada fáceis da liberdade, do mal e da justiça divina, que hoje são de grande atualidade também para nós. Inspirado pelo Espírito Santo, Ben-Sirá pretende transmitir a todos o caminho a seguir para uma vida sábia e digna de ser vivida diante de Deus e dos irmãos.

3. Um dos temas a que este autor sagrado dedica mais espaço é a oração, e fá-lo com grande ardor, porque dá voz à sua própria experiência pessoal. Efetivamente, nenhum texto sobre a oração poderia ser eficaz e fecundo se não partisse de quem se encontra diariamente na presença de Deus e escuta a sua Palavra. Ben-Sirá declara que, desde a sua juventude, procurou a sabedoria: «Quando eu era ainda jovem, antes de ter viajado, busquei abertamente a sabedoria na oração» (Eclo 51, 13).

4. No seu caminho, descobre uma das realidades fundamentais da revelação, ou seja, o fato de os pobres terem um lugar privilegiado no coração de Deus, a tal ponto que, perante o seu sofrimento, Deus se “impacienta” enquanto não lhes faz justiça: «A oração do humilde penetrará as nuvens, e não se consolará, enquanto ela não chegar até Deus. Ele não se afastará, enquanto o Altíssimo não olhar, não fizer justiça aos justos e restabelecer a equidade. O Senhor não tardará nem terá paciência com os opressores» (Eclo 35, 17-19). Deus, porque é um Pai atento e carinhoso para com todos, conhece os sofrimentos dos seus filhos. Como Pai, preocupa-se com aqueles que mais precisam dele: os pobres, os marginalizados, os que sofrem, os esquecidos... Ninguém está excluído do seu coração, uma vez que, diante d’Ele, todos somos pobres e necessitados. Somos todos mendigos, pois sem Deus não seríamos nada. Nem sequer teríamos vida se Deus não no-la tivesse dado. E, no entanto, quantas vezes vivemos como se fôssemos os donos da vida ou como se tivéssemos de a conquistar! A mentalidade mundana pede que sejamos alguém, que nos tornemos famosos independentemente de tudo e de todos, quebrando as regras sociais para alcançar a riqueza. Que triste ilusão! A felicidade não se adquire espezinhando os direitos e a dignidade dos outros.

A violência causada pelas guerras mostra claramente quanta arrogância move aqueles que se consideram poderosos aos olhos dos homens, enquanto aos olhos de Deus são miseráveis. Quantos novos pobres produz esta má política das armas, quantas vítimas inocentes! Contudo, não podemos recuar. Os discípulos do Senhor sabem que cada um destes “pequeninos” traz gravado em si o rosto do Filho de Deus, e que a nossa solidariedade e o sinal da caridade cristã devem chegar até eles. «Cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 187).

5. Neste ano dedicado à oração, precisamos de fazer nossa a oração dos pobres e rezar com eles. É um desafio que temos de aceitar e uma ação pastoral que precisa de ser alimentada. Com efeito, «a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária» (ibid., 200).

Tudo isto requer um coração humilde, que tenha a coragem de se tornar mendigo. Um coração pronto a reconhecer-se pobre e necessitado. Existe, efetivamente, uma correspondência entre pobreza, humildade e confiança. O verdadeiro pobre é o humilde, como afirmava o santo bispo Agostinho: «O pobre não tem de que se orgulhar, o rico tem o orgulho para combater. Portanto, escuta-me: sê um verdadeiro pobre, sê virtuoso, sê humilde» (Discursos, 14, 4). O homem humilde não tem nada de que se vangloriar nem nada a reclamar, sabe que não pode contar consigo próprio, mas acredita firmemente que pode recorrer ao amor misericordioso de Deus, diante do qual se encontra como o filho pródigo que regressa a casa arrependido para receber o abraço do pai (cf. Lc 15, 11-24). O pobre, sem nada em que se apoiar, recebe a força de Deus e coloca n’Ele toda a sua confiança. Com efeito, a humildade gera a confiança de que Deus nunca nos abandonará e não nos deixará sem resposta.

6. Aos pobres que habitam as nossas cidades e fazem parte das nossas comunidades, recomendo que não percam esta certeza: Deus está atento a cada um de vós e está perto de vós. Ele não se esquece de vós, nem nunca o poderia fazer. Todos nós fazemos orações que parecem não ter resposta. Por vezes, pedimos para sermos libertados de uma miséria que nos faz sofrer e nos humilha, e Deus parece não ouvir a nossa invocação. Mas o silêncio de Deus não significa distração face ao nosso sofrimento; pelo contrário, contém uma palavra que pede para ser acolhida com confiança, abandonando-nos a Ele e à sua vontade. É ainda Ben-Sirá que o testemunha: “O juízo de Deus será em favor dos pobres” (cf. 21, 5). Da pobreza, portanto, pode brotar o canto da mais genuína esperança. Lembremo-nos de que «quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. […] Esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 2).

7. O Dia Mundial dos Pobres tornou-se um compromisso na agenda de cada comunidade eclesial. É uma oportunidade pastoral que não deve ser subestimada, porque desafia cada fiel a escutar a oração dos pobres, tomando consciência da sua presença e das suas necessidades. É uma ocasião propícia para realizar iniciativas que ajudem concretamente os pobres, e também para reconhecer e apoiar os numerosos voluntários que se dedicam com paixão aos mais necessitados. Devemos agradecer ao Senhor pelas pessoas que se disponibilizam para escutar e apoiar os mais pobres: sacerdotes, pessoas consagradas e leigos que, com o seu testemunho, são a voz da resposta de Deus às orações daqueles que a Ele recorrem. Portanto, o silêncio quebra-se sempre que se acolhe e abraça um irmão necessitado. Os pobres têm ainda muito para ensinar, porque numa cultura que colocou a riqueza em primeiro lugar e que sacrifica muitas vezes a dignidade das pessoas no altar dos bens materiais, eles remam contra a corrente, tornando claro que o essencial da vida é outra coisa.

A oração, por conseguinte, encontra o certificado da sua autenticidade na caridade que se transforma em encontro e proximidade. Se a oração não se traduz em ações concretas, é vã; efetivamente, «a fé sem obras está morta» (Tg 2, 26). Contudo, a caridade sem oração corre o risco de se tornar uma filantropia que rapidamente se esgota. «Sem a oração quotidiana, vivida com fidelidade, o nosso fazer esvazia-se, perde a alma profunda, reduz-se a um simples ativismo» (BENTO XVI, Catequese, 25 de abril de 2012). Devemos evitar esta tentação e estar sempre vigilantes com a força e a perseverança que nos vem do Espírito Santo, que é dador de vida.

8. Neste contexto, é bom recordar o testemunho que nos deixou Madre Teresa de Calcutá, uma mulher que deu a vida pelos pobres. Esta santa repetia continuamente que a oração era o lugar donde tirava força e fé para a sua missão de serviço aos últimos. Quando falou na Assembleia Geral da ONU, a 26 de outubro de 1985, mostrando a todos as contas do terço que trazia sempre na mão, disse: «Sou apenas uma pobre freira que reza. Ao rezar, Jesus põe o seu amor no meu coração e eu vou dá-lo a todos os pobres que encontro no meu caminho. Rezai vós também! Rezai, e sereis capazes de ver os pobres que tendes ao vosso lado. Talvez no mesmo andar da vossa casa. Talvez até nas vossas próprias casas há quem espera pelo vosso amor. Rezai, e abrir-se-ão os vossos olhos e encher-se-á de amor o vosso coração».

E como não recordar aqui, na cidade de Roma, São Bento José Labre (1748-1783), cujo corpo jaz e é venerado na igreja paroquial de Santa Maria ai Monti. Peregrino desde França até Roma, rejeitado em muitos mosteiros, viveu os seus últimos anos pobre entre os pobres, passando horas e horas em oração diante do Santíssimo Sacramento, com o terço, recitando o breviário, lendo o Novo Testamento e a Imitação de Cristo. Não tendo sequer um pequeno quarto para se alojar, dormia habitualmente num canto das ruínas do Coliseu, como “vagabundo de Deus”, fazendo da sua existência uma oração incessante que subia até Ele.


9. No caminho para o Ano Santo, exorto todos a fazerem-se peregrinos da esperança, dando sinais concretos de um futuro melhor. Não nos esqueçamos de guardar «os pequenos detalhes do amor» (Exort. ap. Gaudete et Exsultate, 145): parar, aproximar-se, dar um pouco de atenção, um sorriso, uma carícia, uma palavra de conforto... Estes gestos não podem ser improvisados; antes, exigem uma fidelidade quotidiana, muitas vezes escondida e silenciosa, mas fortalecida pela oração. Neste momento, em que o canto da esperança parece dar lugar ao ruído das armas, ao grito de tantos inocentes feridos e ao silêncio das inúmeras vítimas das guerras, dirijamos a Deus a nossa invocação de paz. Somos pobres de paz e, para a acolher como um dom precioso, estendemos as mãos, ao mesmo tempo que nos esforçamos por costurá-la no dia-a-dia.

10. Em todas as circunstâncias, somos chamados a ser amigos dos pobres, seguindo os passos de Jesus, que foi o primeiro a solidarizar-se com os últimos. Que a Santa Mãe de Deus, Maria Santíssima, nos sustente neste caminho; ela que, aparecendo em Banneux, nos deixou uma mensagem a não esquecer: «Eu sou a Virgem dos pobres». A ela, a quem Deus olhou pela sua humilde pobreza e em quem realizou grandes coisas com a sua obediência, confiemos a nossa oração, convictos de que subirá até ao céu e será ouvida.

Roma – São João de Latrão, na Memória de Santo António, Patrono dos pobres, 13 de junho de 2024.


FRANCISCO


sexta-feira, 20 de outubro de 2023

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO



DIA MUNDIAL DAS MISSÕES DE 2023 - 22 de outubro de 2023

Corações ardentes, pés ao caminho (cf. Lc 24, 13-15)

Queridos irmãos e irmãs!

Para o Dia Mundial das Missões deste ano escolhi um tema que se inspira na história dos discípulos de Emaús, narrada por Lucas no seu Evangelho (cf. 24, 13-35): «Corações ardentes, pés ao caminho». Aqueles dois discípulos estavam confusos e desiludidos, mas o encontro com Cristo na Palavra e no Pão partido acendeu neles o entusiasmo para pôr os pés ao caminho rumo a Jerusalém e anunciar que o Senhor tinha verdadeiramente ressuscitado. Na narração evangélica, apreendemos a transformação dos discípulos a partir de algumas imagens sugestivas: corações ardentes pelas Escrituras explicadas por Jesus, olhos abertos para O reconhecer e, como ponto culminante, pés ao caminho. Meditando sobre estes três aspetos, que traçam o itinerário dos discípulos missionários, podemos renovar o nosso zelo pela evangelização no mundo de hoje.

1. Corações ardentes, «quando nos explicava as Escrituras». A Palavra de Deus ilumina e transforma o coração na missão.

No caminho de Jerusalém para Emaús, os corações dos dois discípulos estavam tristes – como transparecia dos seus rostos – por causa da morte de Jesus, em Quem haviam acreditado (cf. 24, 17). Perante o fracasso do Mestre crucificado, a esperança de que fosse Ele o Messias, desmoronou-se neles (cf. 24, 21).

E eis que, «enquanto conversavam e discutiam, aproximou-Se deles o próprio Jesus e pôs-Se com eles a caminho» (24, 15). Como no início da vocação dos discípulos, também agora, no momento da frustração, o Senhor toma a iniciativa de Se aproximar dos seus discípulos e caminhar a par deles. Na sua grande misericórdia, Ele nunca Se cansa de estar conosco, apesar dos nossos defeitos, dúvidas, fraquezas e não obstante a tristeza e o pessimismo nos reduzam a «homens sem inteligência e lentos de espírito» (24, 25), pessoas de pouca fé.

Hoje como então, o Senhor ressuscitado está próximo dos seus discípulos missionários e caminha a par deles, sobretudo quando se sentem frustrados, desanimados, temerosos perante o mistério da iniquidade que os rodeia e quer sufocá-los. Por isso, «não deixemos que nos roubem a esperança!» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 86). O Senhor é maior do que os nossos problemas, sobretudo quando os encontramos ao anunciar o Evangelho ao mundo, porque esta missão, afinal, é d’Ele e nós somos simplesmente os seus humildes colaboradores, «servos inúteis» (cf. Lc 17, 10).

Em Cristo, expresso a minha proximidade a todos os missionários e missionárias do mundo, especialmente àqueles que atravessam um momento difícil: caríssimos, o Senhor ressuscitado está sempre convosco e vê a vossa generosidade e os vossos sacrifícios em prol da missão evangelizadora em lugares distantes. Nem todos os dias da vida são cheios de sol, mas lembremo-nos sempre das palavras do Senhor Jesus aos seus amigos, antes da Paixão: «No mundo, tereis tribulações; mas tende confiança: Eu já venci o mundo!» (Jo 16, 33).

Depois de ouvir os dois discípulos no caminho de Emaús, Jesus ressuscitado, «começando por Moisés e seguindo por todos os profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que Lhe dizia respeito» (Lc 24, 27). E os corações dos discípulos inflamaram-se, como no fim haviam de confidenciar um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (24, 32). Na realidade, Jesus é a Palavra viva, a única que pode fazer arder, iluminar e transformar o coração.

Assim compreendemos melhor a afirmação de São Jerônimo: «A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo» (Commentarii in Isaiam, Prologus). «Sem o Senhor que nos introduz na Sagrada Escritura, é impossível compreendê-la em profundidade; mas é verdade também o contrário, ou seja, que, sem a Sagrada Escritura, permanecem indecifráveis os acontecimentos da missão de Jesus e da sua Igreja no mundo» (Francisco, Carta ap. sob forma de Motu Proprio Aperuit illis, 1). Por isso, o conhecimento da Escritura é importante para a vida do cristão e, mais ainda, para o anúncio de Cristo e do seu Evangelho. Caso contrário, que iríamos transmitir aos outros senão as próprias ideias e projetos? E poderia alguma vez um coração frio fazer arder o dos outros?

Portanto, deixemo-nos sempre acompanhar pelo Senhor ressuscitado que nos explica o sentido das Escrituras. Deixemos que Ele faça arder o nosso coração, nos ilumine e transforme, para podermos anunciar ao mundo o seu mistério de salvação com a força e a sabedoria que vêm do seu Espírito.

2. Olhos que «se abriram e O reconheceram» ao partir o pão. Jesus na Eucaristia é ápice e fonte da missão.

Os corações ardentes pela Palavra de Deus impeliram os discípulos de Emaús a pedir ao misterioso Viandante que ficasse com eles ao cair da noite. E, encontrando-se ao redor da mesa, os seus olhos abriram-se e reconheceram-No, quando Ele partiu o pão. O elemento decisivo que abre os olhos dos discípulos é a sequência de ações efetuadas por Jesus: tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-lho. São gestos comuns de qualquer chefe de família judia, mas, realizados por Jesus Cristo com a graça do Espírito Santo, renovam para os dois comensais o sinal da multiplicação dos pães e sobretudo da Eucaristia, o sacramento do Sacrifício da cruz. Mas, precisamente no momento em que reconhecem Jesus n’Aquele-que-parte-o-pão, «Ele desapareceu da sua presença» (Lc 24, 31). Este facto faz compreender uma realidade essencial da nossa fé: Cristo que parte o pão, torna-Se agora o Pão partido, partilhado com os discípulos e depois consumido por eles. Tornou-Se invisível, porque agora entrou dentro do coração dos discípulos para fazê-los arder ainda mais, impelindo-os a retomar sem demora o seu caminho para comunicar a todos a experiência única do encontro com o Ressuscitado! Assim, Cristo ressuscitado é Aquele-que-parte-o-pão e, simultaneamente, o Pão-partido-para-nós. E, por conseguinte, cada discípulo missionário é chamado a tornar-se, como Jesus e n’Ele, graças à ação do Espírito Santo, aquele-que-parte-o-pão e aquele-que-é-pão-partido para o mundo.


A propósito, é preciso ter presente que, se o simples repartir o pão material com os famintos em nome de Cristo já é um ato cristão missionário, quanto mais o será o repartir o Pão eucarístico, que é o próprio Cristo? Trata-se da ação missionária por excelência, porque a Eucaristia é fonte e ápice da vida e missão da Igreja.


Assim no-lo recordou o Papa Bento XVI: «Não podemos reservar para nós o amor que celebramos neste sacramento [da Eucaristia]: por sua natureza, pede para ser comunicado a todos. Aquilo de que o mundo tem necessidade é do amor de Deus, é de encontrar Cristo e acreditar n’Ele. Por isso, a Eucaristia é fonte e ápice não só da vida da Igreja, mas também da sua missão: uma Igreja autenticamente eucarística é uma Igreja missionária» (Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis, 84).


Para dar fruto, devemos permanecer unidos a Ele (cf. Jo 15, 4-9). E esta união realiza-se através da oração quotidiana, particularmente na adoração, no permanecer em silêncio diante do Senhor, que está conosco na Eucaristia. Cultivando amorosamente esta comunhão com Cristo, o discípulo missionário pode tornar-se um místico em ação. Que o nosso coração anele sempre pela companhia de Jesus, suspirando conforme o ardente pedido dos dois de Emaús, sobretudo ao entardecer: «Fica conosco, Senhor!» (cf. Lc 24, 29).



3. Pés ao caminho, com a alegria de proclamar Cristo Ressuscitado. A eterna juventude duma Igreja sempre em saída.

Depois de abrir os olhos ao reconhecerem Jesus na fração do pão, os discípulos partiram sem demora e voltaram para Jerusalém (cf. Lc 24, 33). Este sair apressado para partilhar com os outros a alegria do encontro com o Senhor, mostra que «a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 1). Não se pode encontrar verdadeiramente Jesus ressuscitado, sem se inflamar no desejo de o contar a todos. Por isso, o primeiro e principal recurso da missão são aqueles que reconheceram Cristo ressuscitado, nas Escrituras e na Eucaristia, e que trazem o seu fogo no coração e a sua luz no olhar. Eles podem testemunhar a vida que não morre jamais, mesmo nas situações mais difíceis e nos momentos mais escuros.

A imagem de pôr os «pés ao caminho» recorda-nos mais uma vez a validade perene da missio ad gentes, a missão confiada pelo Senhor ressuscitado à Igreja: evangelizar toda a pessoa e todos os povos até aos confins da terra. Hoje, mais do que nunca, a humanidade, ferida por tantas injustiças, divisões e guerras, precisa da Boa Nova da paz e da salvação em Cristo. Por isso, aproveito esta ocasião para reiterar que «todos têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de o anunciar sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível» (Ibid., 14). A conversão missionária permanece o principal objetivo que nos devemos propor como indivíduos e como comunidade, porque «a ação missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja» (Ibid., 15).

Como afirma o apóstolo Paulo, o amor de Cristo conquista-nos e impele-nos (cf. 2 Cor 5, 14). Trata-se aqui do duplo amor: o de Cristo por nós que apela, inspira e suscita o nosso amor por Ele. E é este amor que torna sempre jovem a Igreja em saída, com todos os seus membros em missão para anunciar o Evangelho de Cristo, convencidos de que «Ele morreu por todos, a fim de que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou» (2 Cor 5, 15). Todos podem contribuir para este movimento missionário: com a oração e a ação, com ofertas de dinheiro e de sofrimento, com o próprio testemunho. As Pontifícias Obras Missionárias são o instrumento privilegiado para favorecer esta cooperação missionária a nível espiritual e material. Por isso, a recolha de ofertas no Dia Mundial das Missões é destinada à Pontifícia Obra da Propagação da Fé.

A urgência da ação missionária da Igreja comporta naturalmente uma cooperação missionária, cada vez mais estreita, de todos os seus membros a todos os níveis. Este é um objetivo essencial do percurso sinodal que a Igreja está a realizar com as palavras-chave comunhão, participação, missão. Seguramente tal percurso não é um fechar-se da Igreja sobre si mesma; não é um processo de sondagem popular para decidir, como num parlamento, o que é preciso, ou não, acreditar e praticar segundo as preferências humanas. Pelo contrário, é pôr-se a caminho como os discípulos de Emaús, escutando o Senhor ressuscitado que não cessa de vir juntar-Se a nós para nos explicar o sentido das Escrituras e partir o pão para nós, a fim de podermos levar avante, com a força do Espírito Santo, a sua missão no mundo.

Assim como aqueles dois discípulos narraram aos outros o que lhes tinha acontecido pelo caminho (cf. Lc 24, 35), assim também o nosso anúncio há de ser uma jubilosa narração de Cristo Senhor, da sua vida, da sua paixão, morte e ressurreição, das maravilhas que o seu amor realizou na nossa vida.

Portanto saiamos também nós, iluminados pelo encontro com o Ressuscitado e animados pelo seu Espírito. Saiamos com corações ardentes, olhos abertos, pés ao caminho, para fazer arder outros corações com a Palavra de Deus, abrir outros olhos para Jesus Eucaristia, e convidar todos a caminharem juntos pelo caminho da paz e da salvação que Deus, em Cristo, deu à humanidade.

Santa Maria do Caminho, Mãe dos discípulos missionários de Cristo e Rainha das missões, rogai por nós!


Roma – São João de Latrão, na solenidade da Epifania do Senhor,

 6 de janeiro de 2023.


FRANCISCO




quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Memória de São João XXIII e 61 anos da ABERTURA do Vaticano II

 



Dia 11 de outubro

MEMÓRIA DE SÃO JOÃO XXIII

e dos 61 anos da ABERTURA DO CONCILIO VATICANO II

 


REVISTA FAMILIA CRISTà                                                      

Edição: Julho/2012

Seção: Vaticano II                                                                         

Toques: 2.066

Autor: Padre José Oscar Beozzo

Título: Abre-se o Concílio 2

 

Ao cair da noite: “Guardate la luna”!

 

Uma procissão luminosa percorreu as ruas de Roma na noite daquele 11 de outubro, dia da abertura do Vaticano II.

Queria recordar, assim, a espontânea e entusiástica homenagem que, ao final do Concílio de Éfeso (431), o povo da cidade, numa alegre procissão, à luz de tochas, prestara a Maria, proclamada pelo Concílio,  Teótokos”, Mãe de Deus.

João XXIII havia escolhido de propósito esta festa da Maternidade de Maria, para a abertura do Concílio e agora, diante daquele mar de velas acesas que invadira a Praça de São Pedro e suas ruas adjacentes, assomou ao balcão dos aposentos pontifícios para abençoar a multidão:

Olhai a lua!

Esta se levantava no horizonte, iluminando a noite. O Papa emocionado dirige-se ao povo e brota dos seus lábios, inteiramente de improviso, um segundo discurso de abertura do Concílio, diferente daquele da manhã longamente meditado e amadurecido e dirigido aos cardeais, patriarcas, bispos e aos grandes da terra.

Naquele cair da noite,  volta-se para o povo miúdo da cidade saído dos bairros populares e para os peregrinos do mundo todo que haviam acudido a Roma para a abertura do Concílio.

Inicia um diálogo com a multidão:

 

Caros filhos, escuto suas vozes. A minha é uma só, mas retoma as vozes todas do mundo; e aqui de fato o mundo está representado. Dir-se-ia que até a lua se apressou nesta noite… Observai-a no alto a contemplar este espetáculo… Concluímos uma grande jornada de paz… Sim, de paz: “Glória a Deus e paz aos homens de boa vontade”.

A minha pessoa nada conta: é um irmão que fala a vocês, um irmão que se tornou pai pela vontade de Nosso Senhor… Continuemos, pois, a nos querer bem deste modo no encontro: tomar aquilo que nos une e deixar de lado, alguma coisa que possa nos colocar em dificuldade…

Voltando para casa, vocês encontrarão as crianças. Façam-lhes uma carícia e digam-lhes: “Esta é a carícia do Papa”. Encontrarão talvez alguma lágrima para ser enxugada. Tenham para quem sofre uma palavra de conforto. Que saibam os aflitos que o Papa está com seus filhos, especialmente nas horas de tristeza e amargura…

E, então, todos juntos nos amemos: cantando, suspirando, chorando, mas sempre cheios de confiança no Cristo que nos ajuda e nos escuta, retomemos nosso caminho.

Adeus, filhinhos!

Acrescento à bênção o augúrio de boa noite (DCM IV 592-593).

 11 de outubro de 1962


Nas anotações desse dia: Fiat voluntas tua. 

Terminado aquele dia memorável e cheio de emoções, o Papa, que acabara de ser  prevenido por seu médico, poucos dias antes, acerca da grave enfermidade, que o acometera e que o levaria à morte, faz serena entrega de sua vida a Deus. Este lhe permitira abrir o Concílio, mas certamente lhe pediria que o entregasse ao seu sucessor, para seu prosseguimento e conclusão.

Escreve o Papa em sua agenda:

11 de outubro – quinta-feira.

Esta jornada assinala a solene abertura do Concílio Ecumênico. A notícia está em todos os jornais e, em Roma, nos corações exultantes de todos. Agradeço ao Senhor por não fazer-me indigno da honra de abrir, em seu nome, este início de grandes graças para sua Santa Igreja

Ele dispôs que a primeira centelha que preparou durante três anos este acontecimento tivesse saído da minha boca e do meu coração.

Estava disposto a renunciar também à alegria deste início.

Com a mesma tranquilidade repito o “Fiat voluntas tua” [seja feita a tua vontade], a respeito do manter-me à frente deste primeiro posto de serviço, por todo o tempo e em todas as circunstâncias de minha humilde vida, e acerca do sentir-me obrigado, a qualquer momento, a passar ao meu sucessor esta tarefa de proceder, continuar e concluir [o concílio].

Fiat voluntas tua, sicut in coelo et in terra [Seja feita a tua vontade, assim na terra, como no céu] (Mt 6, 10)” (Roncalli G. Pater Amabilis, Agende del Pontefice: 1958-1963, p. 441).

 

Padre José Oscar Beozzo é estudioso da história da Igreja Católica na América Latina, Coordenador Geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular/CESEEP e vigário da Paróquia de São Benedito, na diocese de Lins (SP).

 

 

 

sábado, 30 de setembro de 2023

Hino da Campanha Missionária 2023



Ouça:
 “Corações ardentes” 

O hino da Campanha Missionária 2023 e do 5º Congresso Missionário Nacional foi composto e interpretado pelo músico Antonio Cardoso. Foi gravado em Paulinas/COMEP.

Antonio Cardoso gentilmente colaborou na construção deste hino. Com 45 anos de dedicação à música, Antonio Cardoso iniciou sua trajetória com o apoio do Pe. Zezinho. Ao longo destes anos de vida missionária, realiza inúmeros shows pelas dioceses do Brasil, cantando a missão nos lares e na vida das famílias. Em sua carreira musical, gravou dois compactos, três LPs, quatro CDs e participou de vários discos celebrativos.

Antonio lembra que, no processo de composição do hino, pode resgatar sua origem missionária. “Construímos esta canção com simplicidade, mas, com os corações ardentes e os pés a caminho, porque é urgente caminharmos da Igreja local aos confins do mundo. Agradeço de coração a muitos que sugeriram frases e palavras nesta canção. Do nosso saber brotam profundas reflexões mas, é o nosso querer que nos impele a sairmos do quarto escuro e intimista para a luz sobre o candeeiro, porque o saber só tem sentido quando verdadeiramente reconhecemos Jesus na canção da vida, pura e simples”, destacou o músico.



“CORAÇÕES ARDENTES Hino da Campanha Missionária 2023 e do 5° Congresso Missionário Nacional. Autor: Antonio Cardoso “Corações ardentes, pés a caminho” “Da Igreja local aos confins do mundo” Vamos além-fronteiras em missão Numa resposta de amor e de gratidão Conjugando humildes o verbo amar Resplandecendo a graça da vocação Cristo, Tu és a eterna juventude De uma Igreja em saída, sempre em missão És o caminhante ao cair da noite Que faz arder de amor nosso coração Assim como os discípulos narraram Na mesa de Emaús, naquela refeição Somos pão que parte e se reparte A eucaristia é fonte da nossa missão Somos uma Igreja sinodal Onde o protagonista é o Teu Espírito E neste sonho livre e continental É impossível vivermos sem Ti ó Cristo Ficha técnica: Arranjos: Maestro Luiz Antonio Karam Arregimentação: Maestro Luiz Antonio Karam Bateria: Augusto Arnaldo Delisa Guitarra: Maércio Lopes Violão base: Antonio Cardoso Piano e coberturas: Luiz Antonio Karam Coro: Daiana Lopes, Toninho Neto, Filipe Neto e Karine Lopes Técnico de captação do coral: Osiel Marinho Produtor Musical: Antonio Cardoso Técnico do Estúdio Paulinas/COMEP: Alexandre Soares
Assistente: Vanderlei Pena
Mixagem e Masterização: Alexandre Soares Produtor Musical: Antonio Cardoso Produção da Obra: Pontifícias Obras Missionárias (POM) Agradecimento: Congregação das Irmãs Paulinas - Estúdio/COMEP Videoclipe: TV Aparecida

https://www.youtube.com/watch?v=PCBBFkRohao

8ª Jornada Mundial dos Pobres - mensagem do Papa Francisco

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