Ele “é um de nós”
A
expressão é de um trabalhador argentino. Ao ver o Cardeal Jorge M. Bergoglio
sentado no fundo de um ônibus de transporte público, ele disse aos
companheiros: “ele é um de nós”! Mas podemos acrescentar aqui que “ele é mais
do que um de nós”! Seu vigor, seu ardor e sua energia, sempre vivos e ativos,
espelhavam uma espiritualidade de dupla dimensão. Por uma parte, um olhar
focado no espírito de Deus, que orienta e dirige a Igreja. A intimidade do Papa
Francisco com a presença do Espirito Santo, conduzia-o ao contato com o
mistério da transcendência, como disse em Aparecida. Intimidade e contato que
abrem o coração e alma a horizontes alternativos da história. O espírito
irrompe nas coordenadas da trajetória humana, seja para desnudar os erros e
males das análises e decisões equivocadas, seja para alargar o leque das
escolhas/opções e pavimentar novas veredas no grande sertão da vida,
parafraseando o poeta Guimarães Rosa. Abraçar o mistério da transcendência
consiste em deixar-se interpelar pelo “novo”, dando-se conta que as mudanças
não dependem de nossos méritos ou de nossas forças, e sim da ação invisível do
espírito.
Por
outra parte, um olhar que sai de si mesmo e se dispersa pelos becos e ruas,
pelos campos e cidades, pelos grotões e porões, pelas periferias e fronteiras
da sociedade. Vai lá onde habitam e sofrem, lutam e sonham os pobres,
excluídos, vulneráveis. Neste caso, vem à tona o projeto da “Igreja em saída”,
no sentido de colocar-se a caminho em direção aos lugares mais sórdidos e
longínquos da humanidade. Trata-se aqui de deixar o conforto da sacristia e o
formalismo estéril do ritualismo litúrgico, bem como os benesses e privilégios
da hierarquia e do clero, para caminhar ao encontro daqueles que, literalmente,
“não moram, escondem-se”. O desafio é fazer com que as pastorais sociais,
movimentos, comunidades, paróquias e dioceses criam pernas para recriar, no
contexto atual, aqui e agora, os passos do “profeta itinerante de Nazaré”, que
“percorria todas as aldeias e povoados” (Mt 9, 35) da Galileia, da Samaria e da
Judeia.
O
próprio Jesus, de resto, alterna seu tempo entre os momentos íntimos e intensos
na montanha, junto ao Pai, e o compromisso com os doentes, indefesos e
desvalidos, pelos caminhos. Um olhar focado na face radiante do Abba, e um olhar descentralizado entre
os rostos desfigurados dos oprimidos. Da montanha, traz aos pobres os raios
luminosos do rosto do Senhor, que brilham e iluminam a trajetória humana; do
caminho, leva ao Pai os traços da fome, do abandono e da violência, para que
possa receber luz e calor amorosos de Deus. É evidente que a montanha e o
caminho, longe de se excluírem, se questionam, se entrelaçam, se enriquecem e
se complementam reciprocamente. Quanto mais focado na crescente intimidade com
o Pai, mais Jesus se dispersa para levar o conforto da esperança aos aflitos.
A
prática pastoral do Cardeal Jorge M. Bergoglio, na cidade de Buenos Aires, logo
seguida do pontificado do Papa Francisco, em Roma, refletem e ilustram esse
binômio espiritual-apostólico de contemplação da Transcendência, por um lado,
e, por outro, sociopastoral e político, junto aos empobrecidos e marginalizados
de ambos os lados do oceano Atlântico. Entretanto, na função de pontífice, na
cátedra de Pedro, estende essa prática evangélica a todo o planeta. Emblemática
a esse respeito foi a preocupação do Santo Padre para com os migrantes,
refugiados e apátridas. Aqui também: o foco na intimidade com o Pai, na
montanha, leva Jorge M. Bergoglio às trilhas turbulentas e tortuosas da grande
multidão de pessoas sem raiz e sim pátria, pelos caminhos da migração. “Ele era
um de nós”, sem dúvida, mas “ele foi além de nós”!
Basta
lembrar de suas visitas à ilha de Lampedusa, no extremo sul da Itália, e à ilha
de Lesbos, na Grécia. Ambas as ilhas funcionavam como portas de entrada dos
migrantes na Europa, respectivamente, pela rota mediterrânea e pela rota
balcânica. Mas ele não parou por aí! Nas viagens pelos caminhos e acampamentos
do fenômeno migratório, trouxe para a Itália algumas famílias de refugiados
sírios, com todas as despesas bancadas pelo Estado do Vaticano. Além disso, não
deixou de visitar, igualmente, uma das fronteiras mais icônicas em termos de
mobilidade humana. Estamos falando dos limites geográficos entre os Estados
Unidos e o México, onde tantos sonhos se romperam e se transformam em
pesadelos. Ali deixou claro um refrão tão repetido durante seu ministério:
abater muros e erguer pontes. Nos casos
de Lampedusa e de Lesbos, não deixou de alertar que o mar Mediterrâneo tinha se
transformado num grande cemitério dos migrantes. Deixa assim um legado
inconfundível: combater a globalização da indiferença, em vistas de um projeto
de justiça, fraterno e solidários, todos os povos, culturas e nações.
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs,
assessor do SPM – São Paulo, 26/04/2025

